621
Mate todas as suas concepções sociais. Extermine sua idéia de pai, mãe, irmão, amigos. Ajuste, definitivamente, seu olhar sobre a vida. Conduza-se por si.
620
Palavras são esferas. Quando um autor escreve, ele define um ângulo para cada esfera. Saber ler é ter consciência do ângulo que o autor posicionou as esferas.
619
O inseguro recusa, solenemente, idéias contundentes alheias, pois precisa sustentar sua identidade. Ele se conserva porque teme. Teme porque insegura. Insegura porque ainda não é.
618
Quem protagoniza a própria vida sabe que viver é viver bem, não viver muito. O rebanho, no entanto, teima em apegar-se à vida em si. E economizando-se, definha, mendigando existência.
615
Por manter-me freqüentemente absorto em pensamentos é comum manter-me ranzinza ou debochado perante as obrigatoriedades práticas. Oscilo entre o prazer de pensar, o tesão da carne e a revolta com as obrigações.
614
Muitos filósofos insistem em contrariar outros de modo irresponsável. Tentam impor à força, pela repetição, um novo significado dos conceitos. Focam-se em contrariar e deixam a razoabilidade em coadjuvação.
611
A palavra nasceu do som do atrito entre dois corpos tangíveis. O intelecto nasceu desta capacidade de reconhecermos um tipo de som e reproduzirmos com a boca.
609
A burocracia é um processo de métodos práticos criado para facilitar um objetivo prático. A razão burocrática, no entanto, sucumbe na medida em que o desgaste para o cumprimento destes métodos supera o valor real do objetivo prático.
608
Luto, por sobrevivência, contra toda espécie de expressão automatada. Pois, quando enxergo a existência com tamanha involuntariedade, meu bicho assalta-me por inteiro, perco a razão e enlouqueço.
604
Num debate, há sempre quem insista numa afirmação menos razoável. Há sempre alguém que chega no limite de seu raciocínio, perdendo a capacidade de enxergar a plausivibilidade de uma razão superior.
603
A dor pela morte de um querido talvez seja inferior à dor do término de um amor. Na primeira, culpamos Deus. Na segunda, culpamo-nos.
598
As vontades, as virtudes, por mais intelectuais que sejam, são expressões do tesão. Alimentar uma perversão é a primeira intenção de qualquer esforço.
594
Frente às condições miseráveis em que os pobres vivem, dar-lhes esclarecimento, ou qualquer espécie de consciência, é torturá-los.
592
Por uma vivacidade menos tediosa, idealizamos hum modelo de amor. O mesmo modelo que sobrepomos e continuaremos a sobrepor a todos os amores da nossa vida.
582
Ao que diz-se amigo, mas busca a subtração, afirmo que, certamente, identificarei o vacilante pela respiração.
581
Os fatos, as notícias dos fatos, os comentários dos fatos e os comentários dos comentários repetem-se. A redundância tonteia-me e tortura-me. Conservo a náusea, porém, pois hei de vomitar em todos.
579
É louvável questionar o que gerou um determinado acontecimento em nossa vida. É inútil, entretanto, questionar o acontecimento em si.
578
Concebemos tudo esfericamente, pois existem forças gravitacionais de todas as direções que contribuem para lapidar as coisas neste formato. Não só fisicamente, mas teoricamente. Os conceitos também são esféricos.
577
Hombridade é o domínio pleno da razão. É quando se ganha o poder de defender com propriedade qualquer visão de qualquer questão. É quando o espírito toma as decisões.
576
O pensamento do vivaz transcende o limite físico de sua cabeça e vaza à atmosfera ambiente, interferindo diretamente no clima local.
575
A condição básica do existir é justamente a manutenção da ameaça do não-existir. Ao ampliarmos a percepção desta ameaça, potencializamos nossa existência.
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